"Ao
longo dos anos, desde que sigo a Doutrina Espírita, tenho conversado, com
muitos companheiros, sobre os vários aspectos das actividades do Centro
Espírita, entre elas, a da assistência social.
O
relato de um companheiro, que integra um desses grupos de assistência social,
chamou-me a atenção, sobre a questão de "dar e receber".
Disse-me
ele:
"Certa
vez, a coordenadora dos trabalhos de preparação dos cabazes de alimentos, que
distribuímos gratuitamente, pelas famílias carenciadas da comunidade, disse-nos
que deveríamos colocar tudo igual, em cada cabaz e não, por exemplo, café em
pó, nuns cabazes, e café solúvel, noutros, porque as pessoas reclamam, por uns
terem recebido coisas de certo género e outras de outro... Portanto, o melhor
era ser tudo igual."
Durante
muito tempo, refleti sobre isso. As famílias são carentes, recebem
cabazes
de alimentos que, certamente, suprem as suas necessidades imediatas. Então,
porque reclamam? Afinal, não pagam nada!
Numa
certa ocasião, li um texto que contava a história de uma comunidade iniciada
por um padre, para auxiliar pessoas, que eram o que chamamos de "Sem Abrigo".
A minha
atenção caíu sobre uma passagem, onde o padre contava as suas experiências, na
prática da caridade.
Quando
era menino, costumava acompanhar o seu pai, que, todos os meses, doava um dia
do seu tempo, para atender pessoas carentes. O pai era médico, mas como já
existisse quem atendesse as pessoas nesse sector, ele dedicava-se a cortar
cabelos, profissão que também exercera.
O
menino percebia que embora seu pai executasse seu serviço de graça e com amor,
as pessoas reclamavam muito. Exigiam tal ou tal corte e às vezes, quando iam
embora, maltratavam o pai, porque não gostavam do corte.
Mas o
pai tinha uma paciência infinita, só tentava em atender o que lhe pediam e jamais
revidava as ofensas, chegando mesmo a pedir desculpas, quando alguém não
gostava do trabalho que ele realizara.
Então,
um dia, o menino perguntou ao pai, porque é que ele agia assim. E porque é que
as pessoas reclamavam de algo que recebiam de graça e que não teriam de outra forma?
Para
essas pessoas, disse o pai, “receber é muito difícil. Elas sentem-se humilhadas,
porque recebem sem dar nada em troca. Por isso, elas reclamam. É uma maneira de
manterem a auto-estima, de deixar claro que ainda conservam a própria
dignidade.”
“É
preciso saber dar,” disse o pai, “dar de maneira que a pessoa que recebe não se
sinta ferida na sua dignidade.”
Mais
tarde, li outro texto, sobre o relato de uma moça, que estava muito zangada com
Deus, porque a mãe dela morrera, depois
de vários anos de vida vegetativa, recebendo cuidados dos outros, como um bébé
indefeso.
"Minha
mãe sempre ajudou os outros, nunca quis receber nada, não merecia isso!" -
Dizia ela.
Então,
o coordenador do grupo mediúnico, do Centro Espírita que ela frequentava, certo
dia, fez-lhe chegar uma mensagem recebida, numa dessas reuniões, que dizia o
seguinte:
“A
doença da sua mãe foi uma bênção, pois, ela
passou a vida a ajudar os outros, mas não sabia receber. Durante o tempo da
doença, ela aprendeu que isso era necessário para a sua evolução.”
Depois
de ler esses dois textos, comecei a entender a atitude das pessoas que
reclamavam do que recebiam nos cabazes.
Comecei
também a refletir, sobre essa frágil e necessária ponte, entre as pessoas, que
se chama "Dar e receber".
Quando
ajudamos alguém em dificuldade, quando damos alguma coisa a alguém que dela
necessita, seja material ou imaterial, estamos, teoricamente, em posição de
superioridade. Somos nós, os doadores e isso faz-nos sentir bem e, às vezes, a
nossa tendência é de não darmos
importância, à maneira como essa ajuda é dada.
Por
outro lado, quando somos nós a receber, ou nos sentimos diminuídos, ou recebemos,
como se aquilo nos fosse devido.
E
quantas vezes fazemos, dessa ponte, uma via de sentido único? Quantas vezes somos,
apenas, aquele que dá, aparentemente, com generosidade, mas guardando, lá no
fundo, o nosso sentimento de superioridade, sobre o outro... Ou esperando a sua
eterna gratidão?!
E
recusamos, orgulhosamente, receber, porque "não precisamos de nada, nem de
ninguém"... Ou, porque temos vergonha de mostrar nossa fragilidade, como
se isso nos fizesse menores, aos olhos dos outros!
E,
quantas vezes, fomos apenas aquele que tudo recebe, sem nada dar em troca, egoisticamente,
convencidos do nosso direito a isso?!
A Lei é
"dar com liberalidade e receber com gratidão", ensina-nos São Paulo.
Que, cada um de nós consiga entender as lições de "Dar e receber" e saiba
agradecer, a Deus, as oportunidades de as aprender."
A. Aveiro


