quinta-feira, 19 de julho de 2018

SOBRE - DAR E RECEBER








"Ao longo dos anos, desde que sigo a Doutrina Espírita, tenho conversado, com muitos companheiros, sobre os vários aspectos das actividades do Centro Espírita, entre elas, a da assistência social.

O relato de um companheiro, que integra um desses grupos de assistência social, chamou-me a atenção, sobre a questão de "dar e receber".

Disse-me ele:

"Certa vez, a coordenadora dos trabalhos de preparação dos cabazes de alimentos, que distribuímos gratuitamente, pelas famílias carenciadas da comunidade, disse-nos que deveríamos colocar tudo igual, em cada cabaz e não, por exemplo, café em pó, nuns cabazes, e café solúvel, noutros, porque as pessoas reclamam, por uns terem recebido coisas de certo género e outras de outro... Portanto, o melhor era ser tudo igual."

Durante muito tempo, refleti sobre isso. As famílias são carentes, recebem
cabazes de alimentos que, certamente, suprem as suas necessidades imediatas. Então, porque reclamam? Afinal, não pagam nada!

Numa certa ocasião, li um texto que contava a história de uma comunidade iniciada por um padre, para auxiliar pessoas, que eram o que chamamos de "Sem Abrigo".

A minha atenção caíu sobre uma passagem, onde o padre contava as suas experiências, na prática da caridade.

Quando era menino, costumava acompanhar o seu pai, que, todos os meses, doava um dia do seu tempo, para atender pessoas carentes. O pai era médico, mas como já existisse quem atendesse as pessoas nesse sector, ele dedicava-se a cortar cabelos, profissão que também exercera.

O menino percebia que embora seu pai executasse seu serviço de graça e com amor, as pessoas reclamavam muito. Exigiam tal ou tal corte e às vezes, quando iam embora, maltratavam o pai, porque não gostavam do corte.

Mas o pai tinha uma paciência infinita, só tentava em atender o que lhe pediam e jamais revidava as ofensas, chegando mesmo a pedir desculpas, quando alguém não gostava do trabalho que ele realizara.

Então, um dia, o menino perguntou ao pai, porque é que ele agia assim. E porque é que as pessoas reclamavam de algo que recebiam de graça e que não teriam de outra forma?

Para essas pessoas, disse o pai, “receber é muito difícil. Elas sentem-se humilhadas, porque recebem sem dar nada em troca. Por isso, elas reclamam. É uma maneira de manterem a auto-estima, de deixar claro que ainda conservam a própria dignidade.”

“É preciso saber dar,” disse o pai, “dar de maneira que a pessoa que recebe não se sinta ferida na sua dignidade.”

Mais tarde, li outro texto, sobre o relato de uma moça, que estava muito zangada com Deus, porque a  mãe dela morrera, depois de vários anos de vida vegetativa, recebendo cuidados dos outros, como um bébé indefeso.

"Minha mãe sempre ajudou os outros, nunca quis receber nada, não merecia isso!" - Dizia ela.

Então, o coordenador do grupo mediúnico, do Centro Espírita que ela frequentava, certo dia, fez-lhe chegar uma mensagem recebida, numa dessas reuniões, que dizia o seguinte:

“A doença da sua  mãe foi uma bênção, pois, ela passou a vida a ajudar os outros, mas não sabia receber. Durante o tempo da doença, ela aprendeu que isso era necessário para a sua evolução.”

Depois de ler esses dois textos, comecei a entender a atitude das pessoas que reclamavam do que recebiam nos cabazes.

Comecei também a refletir, sobre essa frágil e necessária ponte, entre as pessoas, que se chama "Dar e receber".

Quando ajudamos alguém em dificuldade, quando damos alguma coisa a alguém que dela necessita, seja material ou imaterial, estamos, teoricamente, em posição de superioridade. Somos nós, os doadores e isso faz-nos sentir bem e, às vezes, a nossa tendência  é de não darmos importância, à maneira como essa ajuda é dada.

Por outro lado, quando somos nós a receber, ou nos sentimos diminuídos, ou recebemos, como se aquilo nos fosse devido.

E quantas vezes fazemos, dessa ponte, uma via de sentido único? Quantas vezes somos, apenas, aquele que dá, aparentemente, com generosidade, mas guardando, lá no fundo, o nosso sentimento de superioridade, sobre o outro... Ou esperando a sua eterna gratidão?!

E recusamos, orgulhosamente, receber, porque "não precisamos de nada, nem de ninguém"... Ou, porque temos vergonha de mostrar nossa fragilidade, como se isso nos fizesse menores, aos olhos dos outros!

E, quantas vezes, fomos apenas aquele que tudo recebe, sem nada dar em troca, egoisticamente, convencidos do nosso direito a isso?!

A Lei é "dar com liberalidade e receber com gratidão", ensina-nos São Paulo. Que, cada um de nós consiga entender as lições de "Dar e receber" e saiba agradecer, a Deus, as oportunidades de as aprender."

A. Aveiro

domingo, 15 de julho de 2018

ANDRÉ LUIZ





"André Luiz, enquanto autor espiritual fez-nos chegar a sua obra através da mediunidade de Chico Xavier e de Waldo Vieira. 

A sua principal colecção de livros, intitulada "A Vida no Mundo Espiritual", conta com treze volumes, os quais encerram profundos ensinamentos, em complemento ao estudo essencial das obras básicas da Doutrina Espírita.

Nessa colecção é possível estudar diversas temáticas, entre elas a mediunidade, a obsessão, os fluidos, a justiça, o sexo, a vida além-túmulo, a lei de causa e efeito, a reencarnação, entre inúmeras outras, visando, todas elas, alargar o nosso espectro de conhecimento e de compreensão dos princípios que o Espiritismo preconiza.

Sem dúvida, "Nosso Lar", a primeira obra deste autor espiritual constituiu um marco no que à publicação de obras subsidiárias diz respeito, visto ter sido a primeira vez que o público em geral teve acesso a informações precisas e detalhadas acerca do Mundo Espiritual e da sua relação com o Plano Físico.

É o benfeitor Emmanuel que, nessa mesma obra, elabora o prefácio e apresenta o «Novo Amigo», aquele que traz até nós um relato minucioso, enriquecedor e extraordinário de uma parte do seu percurso enquanto espírito. 

André Luiz começa por descrever-nos o seu retorno à Pátria Espiritual, após uma das suas encarnações, na qual tinha sido um médico brasileiro bem sucedido do ponto de vista intelectual e material.

Porém, André Luiz, não quis alimentar a curiosidade que ainda aguça a mente de muitos, mesmo no seio do movimento espírita e, por isso, optando por recorrer a um pseudónimo, fez do anonimato a melhor forma de salientar, acima de tudo, a mensagem. Desta forma, partilhou muitas das lições que aprendeu no seu percurso de refazimento espiritual, após uma fase da qual o próprio não se orgulha, e após compreender o estado em que se encontrava, bem como a premência da transformação moral que ainda o aguardava. 

Humildemente, André Luiz partilhou connosco que o facto de termos uma vida materialmente "perfeita", com um bom emprego, uma família, uma habitação com todo o conforto e muitas outras regalias e benefícios materiais, não significa garantirmos a tranquilidade da nossa consciência, uma vez que esta depende da forma como conduzimos as nossas vidas, isto é, do uso que damos ao nosso livre-arbítrio, mas também da dedicação ao Bem.

Por isso mesmo, e apesar de André Luiz ser portador de uma inteligência desenvolvida, aportou ao Plano Espiritual numa condição precária em termos morais, como consequência das decisões que foi tomando durante a sua existência física enquanto médico. 

Ele tinha consciência de que já não se encontrava entre os encarnados, contudo, tinha sensações que não sabia explicar, estando envolvido numa paisagem pesada e acompanhado de outros espíritos em desequilíbrio.

Muitos foram aqueles que, no Plano Espiritual, apelidaram André Luiz de «criminoso» e «suicida», pelos excessos que ele tinha cometido durante a sua existência física precedente. Porém, André agia sem compreender aquelas acusações, por estar fechado na perspectiva materialista que ainda acalentava. Na verdade, estava em causa o desvio face às leis divinas, leis essas que, segundo a Espiritualidade Superior estão inscritas na nossa consciência ("O Livro dos Espíritos", Allan Kardec, questão 621).

Assim se manteve durante oito anos. Nesse período de tempo, procurou o seu passado e tentou fugir de si próprio, da realidade e das escolhas que antes tinha feito, manteve o orgulho que nutria na Terra... Todavia, o sofrimento moral de que padecia, levou-o a colocar questões filosóficas relacionadas com o ser, com o destino e com a religião... Até que um dia, mergulhado em profundo cansaço, abriu o seu coração ao Alto, e emocionado, orou, suplicando amparo, de forma sentida e sincera.

Foi então que, relegando ao amor-próprio e ao orgulho, tornou o seu coração receptivo ao Amparo que esteve ao seu lado durante esses oito anos. Finalmente, André Luiz, estava disposto a aceitar ajuda, tendo a humildade de reconhecer essa necessidade. Naquele momento sublime, Clarêncio, um benfeitor espiritual pôde, finalmente, auxiliá-lo e acolhê-lo na Colónia Espiritual Nosso Lar. 

A partir daí, André Luiz trilha um novo caminho, baseado em novos alicerces para recompor-se espiritualmente, passando a nortear-se pelo interesse na aprendizagem, pela oração, pelo reconhecimento dos seus erros e pelo trabalho sério e constante na sua transformação íntima, compreendendo a verdadeira meta que todos os espíritos devem alcançar: a perfeição.

Assim, em 1944 ficámos a conhecer um Espírito que estava disposto a partilhar o seu exemplo com a humanidade, mas também os ensinamentos que ele próprio foi adquirindo, demonstrando o quão relevante são as constantes bênçãos e misericórdia que recebemos do Alto, bem como o Amparo que nos é incessantemente estendido.

Para além das treze obras da colecção acima indicada, André Luiz é também o autor de várias mensagens edificantes. Alguns títulos poderão ser mais familiares no meio espírita, nomeadamente, "Agenda Cristã", "Conduta Espírita" ou "Opinião Espírita", mas existem muitos outros livros menos divulgados que contam com a colaboração deste nosso «novo amigo», como por exemplo: "Sinal Verde", "A Verdade Responde", "Estude e Viva", "Respostas da Vida", entre outros.

Lendo, relendo e reflectindo em torno das obras e das mensagens da autoria de André Luiz, podemos absorver muitos conteúdos que irão aportar bastante à nossa compreensão da Vida na sua mais vasta acepção, contudo, nunca esqueçamos as consequências morais que podemos retirar de todo e qualquer ensinamento edificante. 

O que realmente importa e que, de resto, está implícito em todo o legado deste Espírito, é o facto de podermos orientar todos estes ensinamentos para um objectivo claro e conciso: o nosso progresso moral e intelectual enquanto espíritos imortais. 

Como refere André Luiz em "Nosso Lar": “Oh! Amigos da Terra! Quantos de vós podereis evitar o caminho da amargura com o preparo dos campos interiores do coração? Acendei vossas luzes antes de atravessar a grande sombra. Buscai a verdade, antes que a verdade vos surpreenda. Suai agora para não chorardes depois.”

Aprendamos com a Doutrina Espírita, mas também com os inúmeros exemplos credíveis que chegam até nós, ajudando-nos a reflectir e a sentir cada vez mais e melhor a bendita Doutrina que nos consola e que nos esclarece."

Maria Helena A.​

quarta-feira, 11 de julho de 2018

"SÓCRATES E A SUA INFLUÊNCIA NO PENSAMENTO KARDECIANO"


 


“Ensinava sem cobrar. Conversava por toda a parte:no mercado, nas estradas, com seus amigos, com os estrangeiros. E aquilo que ensinava não era algo imediatamente utilizável. Procurava excitar os espíritos, fazer com que desconfiassem de si mesmos, inspirar-lhes o desprezo da falsa ciência, daquela que consiste em fórmulas prontas. Queria trazer as inteligências para essa convicção de que uma opinião que não é acompanhada por suas razões não é válida, não tem valor.”

(Henri Bergson, Curso sobre a filosofia grega)



          "Encontramos a raiz do comportamento pedagógico de Denizard Rivail na pedagogia do diálogo inaugurada pelo filósofo Sócrates. O diálogo é o momento mais importante do processo de conscientização do indivíduo através da educação. Essa influência socrática acompanhou toda a sua vida. De Rivail a Kardec, jamais faltou a noção da importância das perguntas decisivas no processo de construção do conhecimento. Os textos pedagógicos de Rivail são revestidos de questionamentos e, em O Livro dos Espíritos, obra que inaugura a Doutrina Espírita, o debate original com a metafísica só foi possível por causa das perguntas elaboradas. No século V a.C, nós temos o período de maior prestígio cultural, econômico e político de Atenas, uma expressiva cidade grega que havia sido criada no século X a.C em homenagem à chamada deusa Atena. Vale ressaltar que não havia o país Grécia e sim várias pólis ou sociedades políticas (baseadas na oralidade), que passaram a interagir de forma mais intensa, oscilando aproximações e conflitos. Pode-se dizer que disputavam mais do que dialogavam e, apenas quando o inimigo externo era muito forte (como, por exemplo, no caso do Império Persa) se organizavam para evitar a invasão da região. Num século que ficou conhecido como o século de Péricles, um conhecido líder e estratego ateniense, emerge num ambiente esplendoroso (e até arrogante) a figura simples de Sócrates. Este nasceu em (470-399 a.C), filho de Fenareta, uma conhecida parteira da cidade de Atenas, e Sofronisco,  um conhecido escultor da mesma cidade. Dessa herança, o pensador grego disse ter se tornado um  parteiro de ideias e um escultor do aperfeiçoamento humano.  Sócrates representa, na história da Filosofia, duas mudanças importantes: o eixo geográfico e temático.  No período anterior, no chamado pré-socrático, apesar de sua grande importância, as discussões filosóficas giravam em torno da filosofia da physis (natureza-processo ou forma). Os filósofos pré-socráticos ou antessocráticos, como queria o filósofo francês Henri Bergson, buscavam a chamada arché, a substância primeira de todas as coisas e  a (ou as buscavam, caso de Empédocles de Agrigento, nos elementos físicos - com a exceção de Parmênides de Eléia). Não é por outra razão que Platão depois vai chamá-lo de grande Parmênides.

Sócrates tinha uma vida simples e jamais aceitou recompensa de ninguém. Dizia estar mais próximo do divino por ter o mínimo de necessidades. Segundo Diógenes Laertius, Sócrates na convivência com Xantipa, dizia aprender a se ajustar às pessoas. Pierre Hadod, a respeito de Sócrates e de seu agir com cuidado, pondera:



“O cuidado de si é, portanto, indissoluvelmente cuidado da cidade e cuidado dos outros, como se vê pelo exemplo do próprio Sócrates, cuja razão de viver é ocupar-se com os outros.” (HADOT, 2008: p.67)



              Sócrates foi acusado injustamente de corromper a juventude e de não acreditar nos vários deuses da Grécia. Seus acusadores foram: Ânito ( artífice e político), Lícon ( retórico) e Mêleto (poeta). Vale destacar, também, a influência das críticas que Sócrates recebeu do comediante Aristófanes, algo admitido pelo próprio Sócrates no livro escrito por Platão, Apologia de Sócrates. Esse pensador tinha um amigo chamado Xenofonte. Este, segundo nos relata Platão, após consultar um conhecido oráculo da cidade de Delfos, teria descoberto através da mensagem do dito Deus Apolo que de todos os homens que viviam na Terra, Sócrates era o mais sábio. Como fiel amigo,  Xenofonte contou a Sócrates o que tinha acabado de descobrir. Sócrates, de posse de novo conhecimento, decidiu fazer uma pesquisa na cidade de Atenas, com todos os cidadãos que se julgavam importantes e descobriu que a maior parte se apresentava com o verniz da hipocrisia. Daí, compreendeu que o verdadeiro sábio é aquele que sabe que nada sabe, e esse conhecimento iria dar direção a toda a sua atividade filosófica e pedagógica. Esse método partia do pressuposto de que todos os seres humanos traziam em seu interior potencialidades a  serem desenvolvidas (caso do escravo no diálogo Mênon).  Portanto algo que inclusive já foi comprovado nos dias atuais pelos estudos sérios realizados em várias áreas do conhecimento. A partir de perguntas feitas com uma ironia refinada, própria de quem educa, Sócrates conduzia seus condiscípulos de dentro para fora, buscando sempre fazer desabrochar potencialidades que, segundo ele, o ser humano trazia dentro de si. Porém, corrigia o palavreado sem compromisso, que era regra de ouro do ensino dos sofistas, tão combatidos por ele, e que apresentava muita semelhança com o discurso empolado e sem consistência do século XX e do início do século XXI. Sócrates criticava a eloquência rasa, algo ainda comum em meios religiosos, políticos e até mesmo científicos. Sócrates identificava, em cada educando, um ser imortal e logo, dentro das suas possibilidades, de educá-los não só para vida, mas também para transcendência da vida. Segundo o filósofo grego, todas as pessoas são educáveis. Ele mesmo tratou de dar o exemplo maior quando enfrentou a morte com intrepidez, como mais uma experiência que, certamente, ensinaria algo a si mesmo, a sua esposa aflita, aos seus acusadores e aos seus discípulos.    Por isso, podemos considerar Sócrates como educador, pois tudo que realiza em vida tem por objetivo levar alguém a desabrochar a sua visão de mundo, a desenvolver suas potencialidades, a manifestar na sociedade o que tem de melhor.  Ele, que possuía a virtude essencial para quem trabalha com a educação, a simplicidade, faz de sua condenação seu maior exemplo pedagógico para a posteridade.  A partir de Sócrates, a problemática humana passou a ser evidenciada, permitindo dessa maneira à filosofia iniciar uma investigação sobre a dimensão ético-política da realidade.

      Existe no pensamento socrático uma relação de reciprocidade entre o ser e o meio social. O ser, segundo Sócrates, deve abrir mão da vantagem pessoal (algo defendido pelos Sofistas, Trasímaco, por exemplo) para valorizar o bem-comum, o belo, o justo, ou seja, o bem da cidade, o bem de todos. Outra característica da filosofia socrática seria a revolução conceitual proposta por Sócrates. Busca-se, conceitualmente, a definição para chegar às características principais das ideias. Como disse o professor Herculano Pires:


“Sócrates descobriu o conceito e proclamou a sua importância para a vida humana. O conceito é a ideia-geral, a representação sintética do particular, mas por isso mesmo traz em si a chave de todos os segredos, de todas as dificuldades que encontramos no particular.” (PIRES, 2005: 115)



   O conceito, então, segundo Sócrates, é o ponto de maior maturidade da discussão filosófica. É, também, o delta da relação pedagógica. Não que exista um fim em si mesmo a ser atingido, mas existe o segredo, isto é, aquilo que você não pode deixar de saber sobre uma determinada coisa. Essas ideias gerais, devido à falta de argumentação filosófica nas sociedades, nem sempre são percebidas. O que pretendia o pensamento socrático era não permitir que o aparente, o falso, o engodo, aparecessem como se fossem realidade.


                                    O autoconhecimento


            O autoconhecimento é insubstituível e intransferível. Pode ser comparado, em grau de importância, ao que representam as necessidades fisiológicas para o corpo, ou seja, a subsistência do ser depende do atendimento a determinadas demandas físicas. Por exemplo: não é possível viver sem beber água, sem se alimentar adequadamente, sem dormir etc. Assim também acontece com o nosso aparelho psíquico. Psiquicamente, o autoconhecimento é o processo através do  qual a personalidade se desenvolve e amadurece. É o recurso indispensável para a prevenção de doenças psicossomáticas. É o meio no qual o processo de ensinagem e o de aprendizagem se encontram.  Sócrates sabia perfeitamente da importância do autodescobrimento. Por isso, traz o ensinamento do oráculo de Delfos (conhece-te a ti mesmo) para a sua vida e diz que, antes de conhecermos qualquer coisa fora de nós, deveríamos conhecer a nós mesmos. Ninguém como ele, na Filosofia, preocupou-se tanto com a prática da virtude e com o aperfeiçoamento das possibilidades humanas. Este trabalho considera importante fazer um resgate de sua história. Para garantir a felicidade de uma cidade, portanto, seria necessário possibilitar aos cidadãos o autoconhecimento, isto é, o conhecimento de sua própria natureza. Esse seria o primeiro passo do processo de ensino-aprendizagem proposto por Sócrates. A frase inscrita no oráculo de Delfos “Conhece-te a ti mesmo” teve em Sócrates uma exemplificação, até então, jamais vista. O professor Denizard Rivail levaria para a vida a influência socrática de partir de perguntas decisivas para chegar às descobertas a respeito da pesquisa mediúnica. Desse modo, a perspectiva esperançosa de Sócrates a respeito do ser humano, a importância do conceito, do ser, da cidade, o autoconhecimento, entre outras coisas ensinadas pelo filósofo grego, estão inseridas na tradição pedagógica da qual Denizard Rivail seria herdeiro."


André Parente


Bibliografia:

BERGSON, Henri. Cursos sobre filosofia grega. São Paulo, Martins Fontes, 2005.

GRIMALDI, Nicolas. Sócrates, o feiticeiro. São Paulo, Edições Loyola, 2006.

HADOT, Pierre. O Que é filosofia antiga? São Paulo, Edições Loyola, 2008.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. São Paulo, Lake, 2010.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. São Paulo, Lake, 2004.

LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Brasília, Editora UNB, 1997.

PIRES, J.Herculano. Os filósofos. São Paulo, Feesp, 2001.

PLATÃO. Apologia de Sócrates.  Pará, EDUFPA, 2002.

RIVAIL,H.L.D. Plano proposto para a melhoria da educação pública. Tradução de Albertina Escudeiro Sêco. Rio de Janeiro, Edições Léon Denis, 2005.

RIVAIL,H.L.D. Textos pedagógicos. Tradução de Dora Incontri. São Paulo, Comenius, 1999.

WILSON, Emily. A morte de Sócrates.  Rio de Janeiro, Record, 2013.